Mensagem do Capelão
Pe. Sérgio Costa-Couto
A forma octogonal de nossa Igreja
Não
é segredo para ninguém que a nossa igreja
é extremamente procurada por turistas. De fato,
só não é mais dada a dificuldade
de trazê-los até aqui, já que alguns
ônibus não conseguem subir a nossa ladeira.
Esperemos que o plano inclinado remodelado resolva este
problema, possibilitando o acesso dos turistas, cujos
ônibus ficariam estacionados na Praça do
Russel.
Por vezes ocorre que eu assuma o papel de guia turístico;
devo confessar que tenho uma certa vocação
para isso; acho mesmo que faz parte da minha missão.
Diz São Paulo que devemos pregar no tempo oportuno
e no inoportuno (cf. 2Tm 4,2), a todo instante. Assim,
mostrar a nossa bela igreja aos turistas do Brasil e
do mundo é uma forma de apostolado. Não
sei se os veremos de novo, alguns sim outros não,
não importa; o que interessa é lançar
a semente e deixar que Deus aja.
Recebemos também aqui grupos de estudantes de
arquitetura, turismo e história e é importante
acolhê-los bem, penso mesmo que esta é
uma grande falha nossa: a acolhida. Se Jesus nos diz
que devemos tratar o outro como queremos ser tratados
(cf. Mt 7,12), não é o caso de nos perguntarmos
como estamos tratando os nossos visitantes? Às
vezes uma acolhida simpática vale mais que um
belo discurso, ou mesmo que uma obra de benemerência.
A acolhida é um importante ato de amor; mostrar
ao outro que ele bem-vindo, que nos interessamos pelo
bem dele, que queremos que ele aproveite a visita, que
ele aprenda - principalmente no caso dos estudantes
- pode ser feita com mais profundo sentimento de apostolado.
Além disso, perdoem-me a artimanha, não
deixo de embutir no meu discurso uma discreta pregação.
Por vezes, alguns irmãos presenciaram estas minhas
visitas guiadas, e sugeriram que eu as colocasse por
escrito; a estes eu agradeço. E este artigo quer
começar esta obra.
Trato aqui mais do simbolismo religioso universal presente
em nossa igreja. Quanto à história dos
elementos e à descrição artística,
deixo para outros nossos irmãos tão mais
capazes, quer por terem a história, a arte, a
museologia como profissão, o que não é
o meu caso, quer por estarem aqui há muito mais
tempo que eu.
Começaria pelo formato da igreja, talvez o seu
elemento mais precioso: temos uma planta octogonal,
ou melhor, dois octógonos colocados juntos, uma
planta sem dúvida rara. Porém, esta não
é uma escolha aleatória do artista, do
arquiteto no caso, ela é extremamente simbólica,
possuindo raízes antigas e profundas na fé
cristã. De fato ela nos lembra o oitavo dia da
criação. O que é isto? Bem, lemos
no livro do Gênesis, logo em seu início,
que o mundo foi criado em seis dias, no sétimo
Deus descansou; este texto, que naturalmente não
deve ser tomado ao pé da letra, é um belíssimo
poema chamado Hexaemeron que nos apresenta Deus como
criador de todas as coisas, e, ao mesmo tempo, nos lembra
a obrigação de cultuá-lo, reservando
um dia para isto, este é o dever de todo ser
humano. Contudo, Deus em sua infinita bondade quis mais:
quis elevar o homem da esfera natural para a esfera
sobrenatural; enviou seu Filho, que realiza entre nós
a obra da Redenção, que a Sagrada Escritura
e a Tradição da Igreja, refletida na liturgia,
nos apresenta como maior do que a criação
do universo: «Deus eterno e todo-poderoso, que
dispondes de modo admirável todas as vossas obras,
daí aos que foram resgatados pelo vosso Filho
a graça de compreender que o sacrifício
de Cristo, nossa Páscoa, na plenitude dos tempos,
ultrapassa em grandeza a criação do mundo
realizada no princípio.», diz-nos a Oração
após a 1ª leitura da Vigília de Páscoa,
justamente o texto do Hexaemeron (Gn 1,1-2,4a). Por
diversas vezes, o Novo Testamento menciona o oitavo
dia, dizendo que os discípulos se reuniam no
oitavo dia, ou seja o domingo e o outro domingo, no
oitavo dia Jesus reaparece aos apóstolos, estando
Tomé com eles (cf. Jo 20,26). Mesmo o primeiro
milagre, ocorrido em Caná da Galiléia,
por intervenção de María santíssima,
ocorre no oitavo dia; é só contar desde
o início do Evangelho segundo São João,
mais precisamente entre Jo 1,19-2,1.
Na simbologia cristã, este dado se refletiu
sobretudos nos batistérios, e em especial nos
batistérios exteriores, presentes em várias
cidades européias, sendo o mais famoso o de Florença.
Também o encontramos em fontes batismais de diferentes
tamanhos e épocas, significando que o batizado
superava a vida natural, passando a viver a vida sobrenatural
trazida por Cristo; a partir daí ele viveria
num "oitavo dia", continuamente celebrando
o Senhor, e buscando como diz São Paulo, as coisas
do alto.
Em igrejas este tipo de planta é mais raro,
e mais raro ainda é o formato e como o da nossa
igreja, sendo mais comum encontrarmos, até em
igreja de modernas, um único octógono
arredondado, ou uma composição de formas
octogonais, compondo uma cruz.
Sobretudo quando recebo estudantes de arquitetura,
destaco a importância da igreja falar, também
pela sua forma. Uma autêntica igreja católica
não pode ser apenas um espaço para reunir
gente, assemelhando-se a um galpão, ou um auditório.
Em certos casos, não há outra escolha,
é a improvisação do momento, é
escassez de recursos; certamente não é
o ideal. Continuo no próximo mês.
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